"O aluno da UFCG, o pratense Jémerson Carlos faz uma análise sobre as críticas ao eleitor nordestino."

Jémerson Carlos Gonçalves Ribeiro
Graduando em Ciências Sociais - UFCG

Bolsa Família: Importante ou determinante para os eleitores do Nordeste?

O preconceito sempre foi um mal dentro da comunidade brasileira, seja ele com mulher, homossexual, pobre, negro, e até com o nordestino. Há grupos que são formados para espancar e até para matar homossexuais e nordestinos. Mas, este trabalho se dá por outro caminho, onde também se encontra intolerância ao antagonismo, estou falando do que acontece com “o olhar” sobre o “voto do nordestino”. Em todo período de eleição presidencial, diria que a partir de 2002 com a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva o “Lula”, diversos eleitores de outras regiões do Brasil, se detém a falar das “más escolhas” que o nordestino faz e, desta forma, prejudicando o desempenho e o futuro do país. Recentemente veio a público um caso chocante deste preconceito, onde vários médicos postaram em suas redes sociais pedidos de “castrações químicas a nordestinos eleitores de Dilma”. Analisando este caso fico na dúvida se esses médicos (especificamente os que fizeram esses comentários e não a classe médica), que se consideram “elites” e/ou se consideram os mais preparados para escolher em quem votar, estão sendo preconceituosos ou é mais um caso de intolerância política? Talvez os dois. O preconceito com o nordestino se entrelaça a intolerância do antagonismo.

Ouvindo algumas pessoas – até mesmo nordestinos – que seguem a mesma linha de pensamento preconceituosa com os eleitores desta região, eles justificam que o eleitor nordestino é “burro e pobre”, expressão também usada por algumas elites de direita para denominar o nordestino. Não “apenas” isto, o eleitorado de direita culpa uma política pública implantada pelo PT, para fazer fortes criticas ao eleitorado nordestino: O Bolsa Família. Inúmeras revistas acreditam ser o Bolsa Família o grande responsável pelo êxito do PT no nordeste. Uma destas revistas foi a renomada Veja, que publicou “Bolsa Família, o maior colégio eleitoral do Brasil”, vendo o Bolsa Família como uma arma eleitoral para os candidatos. Prefiro não julgar se esta seria uma matéria tendenciosa ou não, mas me pergunto se é o Bolsa Família, ou os benefícios que esta política pública trouxe, que faz o eleitor ser grato a os seus criadores, o PT?

Antes de responder a esta pergunta, resolvi fazer uma análise das eleições de 2002. Em 2002, mais uma vez PSDB e PT estavam no páreo para a disputa presidencial. Pelo PSDB estava o candidato José Serra, que tinha por trás o então presidente Fernando Henrique Cardoso, que saia de um mandato de 08 anos. Pelo PT estava Luiz Inácio Lula da Silva, operário de família humilde, mas com a força de ter participado de diversas lutas sociais e democráticas no país. Naquele ano as eleições foram para o 2º turno, e teve como vencedor Luiz Inácio Lula da Silva. 

Analisei os dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), especificamente no Nordeste, e tive uma surpresa. Nesta eleição, Lula perdeu em apenas um estado, que foi em Alagoas, em todos os outros estados do Nordeste o presidenciável bateu o seu rival José Serra. Se o Bolsa Família foi regulamentado pelo Decreto nº 5.209/2004, como ele estaria influenciando em 2002? Faço essa pergunta para aqueles que acreditam que “o Nordeste” vota no PT por causa do Bolsa Família. Esta política pública foi implantada em 2004, com o PT já no governo, então não foi este programa que o colocou na presidência. 

Na mesma linha discursiva, tenho a convicção de que haverá quem questionará esta análise, afirmando que o discurso de que o Bolsa Família é determinante para o eleitor nordestino, está ligado a os últimos anos, ou a este ano de 2014.  Com base nisso resolvi envolver dados neste meu trabalho. Os dados que usarei diz respeito a uma das metas do programa, que é acabar com a extrema pobreza do país. Consultando o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), encontrei dados de 2004 (quando foi implantado o programa) até 2012. Vejamos abaixo o gráfico da Extrema Pobreza durante estes anos:
Gráfico I:



Fonte: Ipea Data


No ano de 2004, a extrema pobreza no Brasil era equivalente a 13,22% da população do país. Porém, em 2005 esse número já baixou para 11,5%, acontecendo uma diminuição de 1,72% em 01 ano. No ano seguinte, em 2006 a diminuição foi ainda maior, durante este ano houve uma diminuição de 2,05% da extrema pobreza. O ano de menor baixa foi entre 2008 e 2009, havendo uma diminuição de apenas 0,29%. Não foram encontrados dados para o ano de 2010. Mas, em 2011, a extrema pobreza se encontrava em apenas 6,31%. No último ano de análise, em 2012, estávamos com 5,29% da população em extrema pobreza. Fazendo uma relação do primeiro e o último ano, de 2004 e 2012, houve uma redução de 7,93% da extrema pobreza no Brasil. É admissível que esta é uma política pública que vem dando resultado. Os dados não determinam na hora do voto, eles são apenas importantes. Com a certeza que todos querem o bem de país, se uma política vem dando certo, não há motivos para ser contra.

Como a discussão está voltada ao Nordeste, voltarei a apresentar dados. Dados da extrema pobreza no Nordeste de 2004 a 2012, fornecidos pelo IPEA. Em 2004, no Nordeste, nós tínhamos cerca de 14 milhões de pessoas na extrema pobreza no Nordeste. Em 2005, o número já caiu consideravelmente indo para pouco mais de 12 milhões. Em 2006 pouco mais de 10 milhões. No último ano de pesquisa, em 2012, a extrema pobreza no Nordeste estava em 05 milhões de pessoas. Em cerca de 09 anos, mais de 9 milhões de pessoas saíram da extrema pobreza graça ao benefício do Governo Federal. Desta forma fica clara a satisfação do Nordestino. 

Pessoas que viviam em extrema pobreza, hoje conseguem comprar não apenas o alimento para seu domicilio, mas consegue comprar o material escolar para o seu filho freqüentar o Pronatec (mais uma política implantada pelo PT). O agricultor que sofria com a estiagem e com as dificuldades de quem vive do trabalho do campo, hoje pode comprar a mochila para seu filho freqüentar uma Universidade Federal que fica a poucos quilômetros de casa, no Nordeste, no Cariri.

Todos os dados que foram colocados neste trabalho, nos permite analisar a situação do Nordeste. E uma pergunta interessante seria: O eleitor Nordestino é mesmo burro em votar no governo que lhes proporcionou uma melhor condição de vida? Além do benefício em dinheiro ao beneficiário, as condicionalidades do programa permitem uma melhoria na educação, isto acontece por que para o beneficiário continuar recebendo este benefício, suas crianças devem estar freqüentando a escola com freqüência de no mínimo 80%, além disso, o programa junto ao Cadastro Único proporciona entrar em diversos outros programas como Pronatec, Mais Educação, PETI, Carteira do Idoso, Bolsa Estiagem e outros diversos programas que combatem o trabalho infantil e também procura dar melhor condição de vida a quem necessita.

Achar que o Bolsa Família é o motivo principal, ou determinante no voto do nordestino parece já estar acabado por aqui. Porém ainda quero me deter a outro ponto, já que esse tema ganhou mais tonificação nestas eleições de 2014. No Portal da Transparência do Governo Federal é possível ver todos os investimentos do programa, e analisei os investimentos do programa nos estados. O segundo maior investimento do programa Bolsa Família está no estado de São Paulo recebendo R$ 2,1 bilhões, ficando atrás apenas da Bahia. Surpreso, devido a vir de lá a maior parte do preconceito, fui logo ao site do TSE analisar a votação de Dilma Rouseff naquele estado, vez que o Bolsa Família é determinante, segundo os preconceituosos. Parece-me que estão errados. Em São Paulo, o candidato do PSDB, Aécio Neves teve uma votação de 10.152.688 milhões de votos. Já a candidata do PT, Dilma Rouseff obteve apenas 5.927.503 milhões de votos. Derrota da candidata do PT no 2º maior estado beneficiado com o Bolsa Família. 

Com base nestes dados, procuro tentar entender a fundamentação de que o Bolsa Família é o motivo principal para votar no PT. Claro, ele é importante, mas não determinante. Mais que apenas o Bolsa Família, acredito que o eleitorado nordestino olha para as oportunidades de poder estar na roça durante o dia e a noite ir para uma universidade federal. Acredito que mais do que um programa social, mas os avanços sociais e as metas atingidas ao tirar milhares de famílias da extrema pobreza e de condições sub-humanas. 

No Nordeste não chegamos apenas a olhar para um cartão de beneficiário, mas a possibilidade de, graças ao benefício, comprar o alimento e os materiais para seu filho freqüentar a universidade. Universidade que ele encontrará inúmeras portas abertas com projetos e bolsas de estudo. Estímulo. O tão disputado mercado de trabalho ganhou cada vez mais concorrente graças a os cursos profissionalizantes do Pronatec. 

A vontade do povo sempre será o que vai prevalecer numa democracia. Eleições pluripartidárias, sempre com direito a alternância. Isso é saudável para a democracia. Assim como o eleitor nordestino pode ter a sua gratidão com o governo. Não que seja um favor, mas a verdade é que os avanços sociais foram maior do que qualquer outro governo. As portas ficaram cada vez mais abertas ao brasileiro em geral, e não só ao nordestino. 

Talvez o que o nordestino tenha medo é que um governo de ideologia de direita, na defesa do estado mínimo, esqueça de investir em avanços sociais. Talvez o nordestino não queira mais regredir, e sim continuar freqüentando uma universidade sem precisar ir para as grandes metrópoles, o nordestino quer trabalhar durante o dia, para a noite se especializar ainda mais em um curso profissionalizante. Não, o bolsa família não é determinante para o voto do nordestino. Ele é importante, para o voto nordestino, e não apenas, mas para todos os brasileiros que necessitam de uma ajuda para conseguir viver bem, e crescer cada vez mais, pois de acordo com o Portal Brasil 75,4% dos beneficiários estão trabalhando. 

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